
cuentosIA
Fios de prata
Para a Marta, que em 1998 me ofereceu um anel de lata. Vinte e cinco anos depois, devolvo-te o presente. Teu, Javier.

Dizem que os casais estão unidos por um fio vermelho. Ao nosso, em vinte e cinco anos, nasceram cabelos brancos. Hoje, Marta, celebramos as nossas bodas de prata. Estamos em 2026: tu tens cinquenta e dois anos; eu, cinquenta e quatro. Enquanto preparas o café, escondo este livro debaixo do meu guardanapo.
—Andas a tramar alguma coisa, Javier.
Nunca soube disfarçar contigo. Proponho-te voltarmos esta tarde à praça da tua terra. Aceitas antes de eu acabar de te fazer a pergunta.

Agosto de 1998. Tu tinhas vinte e quatro anos e eu vinte e seis. As festas cheiravam a óleo quente e a verão sem pressa. Na tômbola, ganhaste um anel de lata; examinaste o prémio como se tivesses acabado de resolver um assunto importante.
—Dá-me a mão. Vamos aproveitá-lo.
Puseste-mo no dedo mindinho e riste-te da tua própria solenidade. Eu tentei fazer uma piada péssima sobre joalharias. Tu também te riste, Marta, embora bastante menos do que antes.

Nessa mesma madrugada de 1998, a minha mota decidiu deixar-nos na estrada. Tentei pô-la a trabalhar tantas vezes que acabaste por me tirar as chaves.
—Pronto. Hoje voltamos a pé.
O anel de lata incomodava-me ao empurrar a mota, mas não o tirei. Caminhámos até ao amanhecer, levando-a à vez. Quando chegámos, sentámo-nos na borda do passeio. Partilhaste comigo a última bolacha que guardavas na mala. Lembro-me do cansaço e de ainda não querer despedir-me de ti.

Em 2000, chovia tanto que o abrigo da paragem do autocarro parecia uma ilha. Andava há dias a preparar a pergunta e nenhuma frase me soava minha. Tirei aquele anel do bolso.
—Marta, casas comigo? Depois procuramos um que não manche.
Pegaste nele sem responder logo. Esse silêncio continua a ser o minuto mais longo de que me lembro.
—Sim. Mas este não se troca.
O autocarro chegou. Deixámo-lo passar e ficámos ali, abraçados, a ouvir a chuva bater no teto do abrigo.

Em 2001, casámo-nos. Uma rajada de vento levou o teu véu precisamente quando tentávamos ficar quietos para uma fotografia. Desatei a correr atrás dele e tu chamaste-me.
—Deixa-o, Javier. Volta para aqui.
Voltei. A melhor fotografia foi a seguinte: os dois a rir, incapazes de recuperar a compostura. Guardaste-a na tua caixa de bolachas, ao lado do papel da tômbola.
—Para não se perder. Não te ponhas sentimental.
Obedeci-te. Mais ou menos.

Também em 2001, pintámos a sala do nosso primeiro apartamento. Na lata, aquele amarelo parecia discreto. Nas paredes, exigia atenção mesmo com a luz apagada.
—Bom. Assim nunca vai parecer que o dia está nublado.
Eu propus dar outra demão, como se insistir fosse mudar a cor. Tu abriste a janela e distribuíste pão e queijo sobre um jornal. Jantámos no chão, entre pincéis. Durante anos, qualquer amarelo me trouxe de volta o cheiro daquela tinta fresca.

Em 2003, nasceu a Lucía. Uma noite, enquanto ela finalmente dormia, ficámos junto ao berço, demasiado cansados para aproveitar o silêncio. Passaste-me a chávena de café e descobriste o meu primeiro cabelo branco.
—Olha. Já temos a prova de que esta noite foi mesmo longa.
Ri-me baixinho, com medo de a acordar. Marta, guardaste na caixa o papel onde anotávamos as mamadas dela. Disseste que era uma questão de organização. Nunca contestei essa explicação, embora também nunca tenha acreditado inteiramente nela.

Em 2012, houve papéis na mesa da cozinha. Faturas, contas refeitas, decisões que adiávamos para depois do jantar. Aquele ano não ficou em nenhuma fotografia. Uma noite, levantei os pratos para não falar; tu puxaste uma cadeira.
—Senta-te. Não tens de resolver tudo antes de me contares.
Sentei-me. Falámos sem resolver grande coisa, mas dormimos melhor. No dia seguinte, voltámos a fazer contas, juntos. Dessa vez, não te dei razão por hábito: ouvi-te.

Em 2016, passou na rádio uma canção que conhecíamos e deixaste a colher na bancada. Estendeste-me a mão.
—Vem. Isto pode esperar três minutos.
Estávamos a dançar entre a mesa e o forno quando nos chegou o cheiro a queimado. Apaguei o lume; tu abriste a janela. Jantámos torradas, ainda com a rádio ligada.
—Da próxima vez, pomos uma canção mais curta.
Riste-te antes de eu acabar. Pela primeira vez, Marta, a piada tinha chegado a tempo.

Em 2022, a Lucía foi estudar para fora. Ficámos a vê-la afastar-se até virar a esquina. Quando voltámos, a casa soava diferente: ouvia-se até o frigorífico. Marta, entraste no quarto dela e depois fechaste a porta sem a trancar.
—Vou fazer arroz a mais durante uns tempos.
Nessa noite, pusemos dois pratos na mesa. Sentei-me ao teu lado em vez de à tua frente. Deixaste sobre a mesa um bilhete da Lucía; depois guardaste-o na caixa.

Hoje voltamos à praça. É o nosso aniversário de casamento de 2026 e procuro o sítio onde esteve a tômbola em 1998. Tu encontra-lo logo.
—Foi aqui. Não me contraries só para fazer conversa.
Sentamo-nos um pouco antes de voltarmos para jantar. Tiras da mala o anel de lata. Trouxeste-o num envelope, a salvo das chaves.
—Pensava que estava na caixa.
—Hoje tinha de vir.
Deixas-mo na mão.

Esta noite, depois de jantar, dou-te um anel de prata a sério e este livro. Marta, deixas o de lata junto ao prato e abres a primeira página.
—Então era isto que andavas a tramar.
Leio contigo até me pegares na mão. O café arrefece sem que nenhum de nós se levante.
—Cabe na tua caixa?
—O livro não. Vamos ter de o deixar por perto.
Pões o anel novo. Eu levanto os pratos e tu escolhes a gaveta da nossa mesa de cabeceira.

